Maior gargalo da saúde é o atraso no diagnóstico, diz Marcelo Galloro
O maior problema da saúde brasileira não é falta de recursos, mas o tempo perdido até chegar ao diagnóstico certo. É assim que o médico radiologista Marcelo Galloro, fundador e presidente da Syrius Medical Group, descreve o que chama de “gargalo do atraso”, uma combinação de demora no acesso, diagnóstico tardio e decisões que empurram o cuidado para quando a doença já avançou.
“Quando a gente vê crianças chegando a um serviço especializado com a doença já estabelecida, depois de um tempo longo de espera, fica impossível romantizar o tema. Se a medicina chega tarde, ela vira remendo”, afirma.
Na avaliação do médico, a lógica do sistema acaba punindo justamente aquilo que mais impacta a chance de resposta clínica: precocidade. “Em saúde, tempo não é detalhe; tempo é destino”, diz. Para ele, a consequência do atraso aparece em cadeia: tratamentos mais longos, pacientes mais graves, famílias desorganizadas e um custo social que se espalha para além do consultório. “O que encarece não é o exame. O que encarece é a doença que evolui sem diagnóstico precoce.”
Galloro também separa, na trajetória empresarial, o que chama de “necessidade” e “missão”. A necessidade, segundo ele, é objetiva e envolve risco e investimento: abrir unidades, montar equipe, financiar tecnologia e garantir operação. A missão é mais íntima: “A missão é quando eu chego num lugar e passo a gostar daquele lugar. Aí vira compromisso.” Ele afirma que já recusou oportunidades financeiramente favoráveis e já apostou em regiões em que a expansão parecia improvável. “Eu já tive locais que financeiramente eram muito bons para eu entrar e eu bati o olho e falei: ‘não quero’. E locais em que os meus gestores disseram: ‘você é doido de montar algo aqui’. Eu fui do mesmo jeito, porque eu acho que eu tenho alguma coisa para fazer ali.”
Para o fundador da Syrius, a decisão de crescer precisa obedecer a uma régua que não cabe apenas em planilhas. “O setor de saúde tem tentações demais: atalhos fáceis, cortes que ficam bem em relatório. Mas eu aprendi cedo que gestão não pode ser sinônimo de corte”, afirma. Ele diz diferenciar desperdício, que deve ser combatido, de decisões que interrompem atualização tecnológica. “Cortar evolução tecnológica, para mim, é inegociável. Negar exame de alta tecnologia, negar investimento que dá rapidez e assertividade ao diagnóstico, é um dos piores negacionismos que a saúde pode cometer.”
Nessa defesa, Galloro faz críticas diretas ao que considera uma “pressão permanente” para reduzir custos mesmo quando isso afeta o cuidado. Ele afirma que discutir apenas corte de gastos não pode ser o centro da gestão em saúde. “Não tem como você me colocar em uma mesa como gestor de saúde para discutir só cortes”, diz. “Tecnologia sem humanidade também não resolve”, completa, ao apontar que a experiência do paciente começa antes do laudo: passa por acolhimento, clareza de orientação e empatia em momentos de medo e fragilidade.

Dentro da empresa, o médico afirma que há questões “inegociáveis” que sustentam reputação e longevidade. Entre eles, cita o padrão de atendimento, a honestidade na relação de valor e o compromisso com a qualidade do exame, inclusive aceitando refazer etapas quando necessário. “Quando houver questionamento, segunda visão, nós temos a humildade de admitir que tem que ser refeito, revisto. Isso não tem negócio para mim”, afirma. Para ele, “começar de cabeça erguida e seguir de cabeça erguida” custa mais, mas é o único caminho de consistência no longo prazo.
A leitura de Galloro é que o diagnóstico por imagem é uma área em que o avanço tecnológico encurta caminhos decisivos, mas que o resultado final depende do fator humano. “A diferença real não está só na máquina: está em garantir que, da recepção ao atendimento médico, a preocupação com o paciente esteja incluída”, diz. Ele afirma exigir não apenas competência técnica, mas também paciência e disposição para lidar com pessoas, especialmente em exames que são corpo a corpo, como o ultrassom.
Às vésperas de o grupo se aproximar de 15 anos, o fundador afirma que a empresa precisa ir além da narrativa de expansão e consolidar uma agenda de impacto. “Uma empresa pode crescer por muitos motivos, mas ela só se torna relevante quando entende o seu papel no entorno”, afirma. Ele associa o símbolo da Syrius – uma estrela – a um compromisso de direção e responsabilidade. “Estrela, para mim, não é enfeite; é compromisso de trazer o bem, de compartilhar uma Boa Nova no sentido mais concreto possível: cuidado, acesso, presença.”
Para o médico, a síntese do que sustenta o trabalho é direta: “Necessidade me impulsiona a empreender; missão me faz levantar todo dia e não negociar o essencial. O resto é cenário. O essencial é o que permanece.”


