Guerra no Oriente Médio agrava dificuldades vividas pelo agro local
JORNAL O IMPACTO
Foto: CNA/Wenderson Araujo/Trilux
Iniciada há dois meses, em 28 de fevereiro, a escalada militar no Oriente Médio envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã, ainda sem sinais de que possa terminar no curto prazo, vai produzindo estragos na economia mundial que vão além dos derivados de petróleo.
Não bastasse os problemas logísticos causados pela guerra, prejudicando o fluxo de importação e exportação dos mais variados produtos ao redor do mundo, é do Oriente Médio, sobretudo do Irã, que vêm alguns dos produtos mais necessários à produção de alimentos.
Produtores reclamam da escassez e do aumento indiscriminado do preço de fertilizantes nitrogenados e NPK (Nitrogênio, Fósforo, Potássio entre outros), necessários para o plantio, por exemplo, da soja e do milho. “Tenho encontrado dificuldade para achar o produto, ainda pagando mais de 50% do que custava no início do ano”, comentou sob condição de anonimato um produtor de leite local, referindo-se a um suplemento usado na alimentação de suas vacas.
Para os agricultores a situação não é diferente. Além da alta dos preços do óleo diesel ter ocorrido em pleno processo de colheita, produtos usados para corrigir o solo e cuja dependência de fornecimento por países do golfo pérsico fez o preço explodir no mercado internacional também enfrentam escassez.
Valdir Biazotto, secretário municipal de Desenvolvimento Rural de Mogi Mirim, avalia que o quadro atual veio a agravar ainda mais uma situação que, segundo ele, estava longe de ser boa. “De uma maneira geral, o produtor rural está atravessando um momento muito difícil porque a relação de troca, que já não era positiva na virada do ano, agora ficou muito pior, porque os preços dos insumos dispararam, e o preço do produto agrícola continua praticamente na mesma. Então hoje a relação de troca é muito desfavorável ao produtor rural”, avaliou.
Biazotto observa que antes do início da guerra já havia pressão sobre os custos dos fertilizantes e que com a escalada militar o preço disparou, situação que, segundo ele, piorou os reflexos de um outro conflito armado, a guerra Rússia-Ucrânia, que já pressionava o custo de alguns produtos. “No Oriente Médio existe a produção de nitrogenados, assim como o fósforo. Há navios brasileiros carregados desde o começo do mês de março e que estão parados nos portos da região, sem conseguir atravessar o Estreito de Ormuz. Mas tem outra situação que já faz mais tempo que estamos vivendo, que é a guerra da Rússia com a Ucrânia, que em fevereiro agora completou 4 anos. A Rússia é o principal fornecedor de cloreto e nitrato de amônia para o Brasil”, ilustrou.
A reportagem conversou com representantes de duas empresas com larga tradição na fabricação e distribuição de fertilizantes orgânicos, a Provaso e a Visafértil, para expressar suas opiniões sobre o atual momento.
Sebastião Caixeta, da direção da Provaso, disse que o atual cenário vem a se juntar a outras notícias inquietantes relacionadas à situação do agronegócio brasileiro e cujas causas, segundo colocou, guardam relação direta com o cenário econômico do país. “O mercado do agro já vem ruim, mas isso em função de insegurança jurídica, insegurança econômica, ninguém confia em nada, todo mundo com o pé atrás”, avaliou.
Ainda de acordo com Caixeta, assusta o impacto do custo do óleo diesel, que, na sua análise, forma uma “tempestade perfeita”, trazendo a reboque um cenário sombrio para o setor que tem carregado o país nas costas há pelo menos 15 anos sucessivos. “A situação preocupa”, advertiu.
Para Ulisses Girardi, diretor da Visafértil, o momento também é de incertezas, sobretudo diante do inevitável aumento nos custos dos produtores. “A escalada do conflito eleva os preços do petróleo, do gás natural e, especialmente, do diesel, encarecendo não apenas os fertilizantes, mas também os custos logísticos de produção e escoamento”, enxerga. “No Brasil, altamente dependente da importação desses insumos e com forte dependência do transporte rodoviário, esse cenário se traduz em aumento generalizado dos custos operacionais e maior incerteza para o produtor rural”, reforça.
O empresário avalia, no entanto, que o cenário de escassez de produtos importados abre oportunidade para os produtores olhem com maior atenção para os compostos orgânicos. “Diante desse cenário, reforça-se o papel dos fertilizantes orgânicos no manejo integrado da fertilidade do solo, sobretudo por sua capacidade de aumentar a eficiência de uso dos fertilizantes minerais. Ao melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo, esses insumos contribuem para maior aproveitamento dos nutrientes, reduzindo perdas em um contexto de insumos mais caros e restritos. Nesse contexto, a sinergia entre fertilizantes orgânicos e minerais torna-se ainda mais relevante: os insumos orgânicos potencializam a eficiência dos minerais, contribuindo para um uso mais racional e estratégico, o que reforça seu papel como componente essencial para a sustentabilidade econômica e agronômica da produção”, comentou.


